Lágrimas. Esperança. Contentamento. (parte 2)

Eu apreciava sua companhia há um tempo no passado. Não era uma presença que me deixava desconfortável, você estava ali nos momentos que eu mais precisava; eu simplesmente colocava você sobre o meu rosto, e tudo ficava mais fácil de se lidar, além de eu me apresentar menos vulnerável em alguns momentos desconcertantes. Eu me sentia a salvo de todas as coisas com você. Mas assim como qualquer droga, ou até mesmo uma tela de computador, deixei-me seduzir – por seus encantos e facilidades, por me permitir a fuga da realidade e a estadia em um lugar “seguro” – e me tornei uma viciada.

Agora utilizo você as 24 horas do dia, e não há um só domingo de descanso. O que antes era um convívio agradável, virou servidão. Sou sua escrava e assim, não há possibilidade de pedir demissão. Você simplesmente arrancou minha pele para sobrepor acima de minha carne a sua assinatura, aprisionou minha alma em um calabouço sem fim, cortou a ligação de meu coração com a minha mente e vendou meus olhos sem deixar fresta alguma.

Tenho vivido na escuridão palpável, na amargura da alma sofrida e muda, que grita, geme e chora silenciosamente; não há ninguém quem ouça. Me sinto como o salmista Davi. Clamo de dia, mas tu não me ouves; também de noite, mas não encontro sossego. Odeio a mim mesma por não poder encontrar o caminho de volta ao dia, à luz, ao contar das estrelas e ao sorriso sem motivo. Eu não sou capaz; todas as minhas tentativas acabam sempre em frustração, mais dor e mais desespero. Apenas o levantar de um braço mais poderoso que o mal poderá me resgatar deste aprisionar contínuo.

Pensei não ter mais esperança. Essa palavra que tanto amava e queria mostrar ao mundo, se tornou como a ironia da vida para mim, ao ponto de me perguntar sobre sua real existência no mundo debaixo do Sol. Até que um brilho invisível atingiu meus olhos vendados, e eu percebi… que onde existe sofrimento, escuridão e ausência de Vida é que a esperança se torna mais forte, definida e resistente. As lágrimas da desgraça limpam os olhos do aflito para que ele enxergue o Essencial, mesmo que em vultos, nos períodos de luz desta jornada. E a Esperança não é de obter descanso, sucesso ou felicidade. Tudo isso será consequência do desejo cumprido: ver o Rosto tão amável, o braço poderoso, face a face.

A máscara impostora ainda está em mim, mas não por muito tempo.

“A finalidade deve chegar em algum momento, e não é preciso uma fé inabalável para acreditar que a onisciência sabe quando.” C.S Lewis, O problema do sofrimento, página 140.