Certas coisas nunca mudam?

Acabei de ler um texto e me deparei com a frase: “certas coisas nunca mudam”. Engano seu, querido autor. Todas as coisas mudam. Por mais que você deseje intensamente que seus sonhos, projetos, sentimentos e certezas permaneçam os mesmos por toda sua vida, todos os fatores são modificados por meio de apenas um elemento – o tempo. Como cada estação do ano traz consigo mudança de cor das folhas das árvores, calor, frio, flores, folhas ao chão; assim é o tempo modificando nossa vida interior. (Ponha um intercâmbio junto ao tempo e você tem um catalisador do processo).

Eu tinha a ideia de que meu coração era dividido desse jeito, assim como todas as coisas que possuía.

coração

Entretanto, não sabia que estava tão certa. Ué, Lisandra, está perdendo o raciocínio e sendo completamente incoerente? Ainda não, deixa eu explicar.

Sim, eu acredito que as coisas mudam. Estou vivenciando isso e dá uma tristeza louca de ver tudo sendo alterado em meu interior em questão de meses. Meus sonhos eu já não sei mais quais são, os projetos que já não tinha certeza estão mais confusos que anteriormente e até as pessoas do meu convívio foram sucedidas por outras. Ok, Lisandra, a culpa é sua de se meter em um intercâmbio. Sim, mas esse não é o foco da postagem.

Então, aonde eu estava?? Ah, no desespero da alma. Sim, eu literalmente estava no desespero da alma até ouvir essa canção que me lembrou de uma coisa que é eterna e sempre será. O único que nunca será alterado.

“You are my first, You are my last. You are my future and my past.” J.M. McMillan

(Você é o meu primeiro, você é o meu último. Você é meu futuro e o meu passado.)

O desconsolo foi embora – ou melhor, está se despedindo ainda. O meu Pai nunca se tornará uma pessoa diferente com um caráter desconhecido e um coração sem compaixão. Ele jamais olhará para mim com desaprovação por quem me tornei. Ele é o único que conhece todos os meus pensamentos e intenções e ainda assim permanece imutável – em meio a esse emaranhado confuso da minha vida. Na verdade, Ele se alegra e faz tudo se transformar em bem. Porque isto está intrínseco ao caráter dEle. E Ele chama dentro de toda esta desordem:

“Levanta-te, minha amada, minha bela, e vem. Olha e vê que o inverno já passou;  a chuva cessou e já se foi. Aparecem as flores na terra, chegou o tempo de cantar; e já se ouve o arrulhar da rolinha em nossa terra. A figueira começa a dar os seus primeiros figos; as vinhas estão em flor e espalham sua fragrância. Levanta-te, minha amada, minha bela e vem. Pomba minha, que andas pelas fendas das rochas, nos esconderijos, nas encostas dos montes, mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz; pois a tua voz é doce, e o teu rosto é lindo.” Cântico dos Cânticos 2. 10-14

Então, após toda essa análise devo confessar que o autor da expressão “certas coisas nunca mudam” está correto. Na verdade, quase 100% correto, pois apenas uma coisa nunca muda. O resto, assim como nós, não passa de uma metamorfose ambulante.

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Lágrimas. Esperança. Contentamento. (parte 2)

Eu apreciava sua companhia há um tempo no passado. Não era uma presença que me deixava desconfortável, você estava ali nos momentos que eu mais precisava; eu simplesmente colocava você sobre o meu rosto, e tudo ficava mais fácil de se lidar, além de eu me apresentar menos vulnerável em alguns momentos desconcertantes. Eu me sentia a salvo de todas as coisas com você. Mas assim como qualquer droga, ou até mesmo uma tela de computador, deixei-me seduzir – por seus encantos e facilidades, por me permitir a fuga da realidade e a estadia em um lugar “seguro” – e me tornei uma viciada.

Agora utilizo você as 24 horas do dia, e não há um só domingo de descanso. O que antes era um convívio agradável, virou servidão. Sou sua escrava e assim, não há possibilidade de pedir demissão. Você simplesmente arrancou minha pele para sobrepor acima de minha carne a sua assinatura, aprisionou minha alma em um calabouço sem fim, cortou a ligação de meu coração com a minha mente e vendou meus olhos sem deixar fresta alguma.

Tenho vivido na escuridão palpável, na amargura da alma sofrida e muda, que grita, geme e chora silenciosamente; não há ninguém quem ouça. Me sinto como o salmista Davi. Clamo de dia, mas tu não me ouves; também de noite, mas não encontro sossego. Odeio a mim mesma por não poder encontrar o caminho de volta ao dia, à luz, ao contar das estrelas e ao sorriso sem motivo. Eu não sou capaz; todas as minhas tentativas acabam sempre em frustração, mais dor e mais desespero. Apenas o levantar de um braço mais poderoso que o mal poderá me resgatar deste aprisionar contínuo.

Pensei não ter mais esperança. Essa palavra que tanto amava e queria mostrar ao mundo, se tornou como a ironia da vida para mim, ao ponto de me perguntar sobre sua real existência no mundo debaixo do Sol. Até que um brilho invisível atingiu meus olhos vendados, e eu percebi… que onde existe sofrimento, escuridão e ausência de Vida é que a esperança se torna mais forte, definida e resistente. As lágrimas da desgraça limpam os olhos do aflito para que ele enxergue o Essencial, mesmo que em vultos, nos períodos de luz desta jornada. E a Esperança não é de obter descanso, sucesso ou felicidade. Tudo isso será consequência do desejo cumprido: ver o Rosto tão amável, o braço poderoso, face a face.

A máscara impostora ainda está em mim, mas não por muito tempo.

“A finalidade deve chegar em algum momento, e não é preciso uma fé inabalável para acreditar que a onisciência sabe quando.” C.S Lewis, O problema do sofrimento, página 140.

Lágrimas. Esperança. Contentamento. (parte 1)

Lágrimas. Dizem por aí que elas purificam a alma, mas ninguém na verdade gosta de tê-las queimando o rosto, expressando a dor interior. Entretanto, são elementos essenciais para não somente clarear a mente e coração, mas também para dar espaço à alegria da Esperança, mesmo que esta seja por muito adiada.f2d8a3e7851ae65d94e89c1ef2346199

“Os muros de Jerusalém foram derrubados, e as portas da cidade, queimadas. Depois de ouvir essas palavras, sentei-me e chorei. Lamentei por alguns dias; e continuei a jejuar e orar perante o Deus do céu.” Neemias 1.3b-4

Penso como Neemias se sentiu ao receber a notícia sobre o seu amado povo e sua singela e graciosa terra natal. O pesar lhe ocorreu instantaneamente, o chão fugiu de seus pés e o sangue do rosto. O desespero e angústia por seu povo eram as únicas emoções que permeavam seu corpo. E ele correu ao encontro do Eterno.

Há um desconsolo crescente em mim ao observar a situação da Igreja de Cristo hoje, com portões fendidos e portas completamente queimadas. Dividida por padrões erroneamente estabelecidos, irreconhecível, sem vida ou plenitude. Existem apenas ossos espalhados por toda a cidade… e abutres. Quem passa por ela, fecha os olhos e tapa as narinas, tal forte é o cheiro da morte e escuridão. E não há um lamento sequer…

Choro ao lembrar o quão longe ainda estamos do dia da Ressurreição.

“Por isso a justiça está longe de nós e a retidão não nos alcança; esperamos pela luz e encontramos somente trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão.” Isaías 59.9

Ah, como desejo pela Luz da aurora, a Estrela da Manhã! É somente por meio da Luz que os escombros podem ser observados e retirados, os alicerces da cidade fundados novamente para a reconstrução. E descobri um caminho para a claridade: uma trilha coberta de lágrimas. Uma vereda de exposição da ferida na qual render-se e negar-se a si mesmo é necessário para a cura. Que recorramos como Neemias ao Eterno. Com pesar, desespero,angústia e pranto.

“Ele viu que não havia ninguém e admirou-se que ninguém intercedesse; […]” Isaías 59.16a

Quando tudo está escuro, sem direção e contentamento, já dizia o General William Booth (fundador do Exército da Salvação): Tente lágrimas.